Em muitos ambientes de trabalho, o ruído faz parte da rotina. O som constante de máquinas, motores, compressores e equipamentos de impacto costuma ser encarado como algo normal por quem convive diariamente com esse cenário.
No entanto, o ruído ocupacional vai muito além de um simples incômodo. Na verdade, ele representa um agente de risco capaz de causar danos irreversíveis à audição, comprometer a saúde dos trabalhadores e aumentar a probabilidade de acidentes.
Ao longo deste artigo, você entenderá o que caracteriza o ruído ocupacional, conhecerá seus principais efeitos sobre a saúde, verá o que dizem as normas regulamentadoras e descobrirá quais medidas ajudam a proteger os trabalhadores.
O que é ruído ocupacional e por que ele representa um risco?
Em primeiro lugar, o ruído corresponde às vibrações sonoras que se propagam pelo ar em diferentes frequências e intensidades.
Além disso, o ouvido humano percebe sons entre aproximadamente 20 Hz e 20.000 Hz. Dentro dessa faixa, a exposição prolongada a níveis elevados de pressão sonora pode provocar diversos problemas de saúde.
No ambiente de trabalho, considera-se ruído ocupacional todo nível de som que ultrapassa os limites de tolerância estabelecidos pela NR-15, comprometendo a saúde, a segurança e o desempenho dos trabalhadores.
Por exemplo, esse tipo de exposição pode ocorrer em atividades que utilizam:
- motores;
- compressores;
- ventiladores industriais;
- equipamentos de usinagem;
- marteletes;
- serras;
- prensas;
- geradores.
Entretanto, o grande desafio é que os efeitos costumam surgir de forma lenta e silenciosa. Como resultado, quando o trabalhador percebe zumbidos ou dificuldade para ouvir, parte da capacidade auditiva já pode ter sido comprometida.
Panorama do ruído ocupacional no Brasil
Atualmente, diversos estudos mostram que a exposição ao ruído continua sendo uma das principais causas de doenças ocupacionais no país.
Além disso, os dados mais recentes demonstram esse cenário:
- em 2023, o Brasil registrou 468 casos de Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) relacionados ao trabalho, sendo aproximadamente 86% dos casos em homens;
- entre 2012 e 2021, foram registrados mais de 7.400 casos de PAIR, principalmente entre trabalhadores da indústria;
- da mesma forma, um levantamento realizado na Região Sul identificou 837 casos entre 2019 e 2023;
- por fim, outro estudo nacional apontou mais de 2.200 registros relacionados à exposição contínua ao ruído.
Ainda assim, especialistas alertam para a subnotificação dos casos. Por esse motivo, o número real de trabalhadores afetados pode ser significativamente maior.
Quais são os principais tipos de ruído?
De modo geral, os ambientes industriais e comerciais apresentam diferentes formas de exposição ao ruído.
Ruído contínuo
Nesse caso, o ruído mantém intensidade praticamente constante durante toda a jornada.
Por exemplo, o funcionamento permanente de motores industriais caracteriza esse tipo de exposição.
Ruído intermitente
Por outro lado, o ruído intermitente varia ao longo do dia, alternando períodos de maior e menor intensidade.
Como exemplo, máquinas que ligam e desligam durante a produção geram esse comportamento sonoro.
Ruído de impacto
Já o ruído de impacto ocorre em picos intensos e de curta duração, geralmente inferiores a um segundo.
Entre os exemplos estão marteladas, explosões, quedas de materiais e disparos metálicos.
Nessas situações, a NR-15 estabelece limites específicos de exposição, que podem chegar a 130 dB. Portanto, esse tipo de ruído exige controle rigoroso e medidas preventivas adequadas.
Comparando o ruído ocupacional com situações do dia a dia
Para compreender melhor a intensidade desses sons, basta comparar alguns exemplos conhecidos.
Por exemplo, uma britadeira ou uma motosserra pode ultrapassar facilmente 100 dB.
Da mesma forma, a buzina de um veículo pode atingir aproximadamente 120 dB.
Além disso, shows musicais frequentemente alcançam níveis entre 100 e 120 dB. Por essa razão, utilizam sistemas de controle acústico para proteger músicos e espectadores.
Assim, essas comparações mostram que muitos trabalhadores permanecem expostos durante horas a níveis sonoros semelhantes aos encontrados em eventos de grande intensidade.
Como o ruído afeta a saúde dos trabalhadores?
Os efeitos da exposição ao ruído variam conforme a intensidade, o tempo de exposição e as medidas de proteção adotadas.
Trauma acústico
Em casos extremos, o trauma acústico ocorre após exposição repentina a sons extremamente intensos, como explosões.
Como consequência, a perda auditiva pode ocorrer imediatamente e tornar-se irreversível.
Perda auditiva temporária
Por outro lado, a exposição contínua a níveis elevados pode provocar sensação de ouvido abafado e redução temporária da audição.
Em alguns casos, parte da capacidade auditiva retorna após um período de descanso.
Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR)
Quando a exposição ocorre durante anos sem controle adequado, as células sensoriais do ouvido sofrem danos permanentes.
Consequentemente, desenvolve-se a PAIR, caracterizada por perda auditiva neurossensorial, bilateral e irreversível.
Além da perda auditiva, o ruído também pode provocar:
- estresse;
- dificuldade de concentração;
- fadiga mental;
- alterações no sono;
- aumento da pressão arterial;
- maior risco de acidentes de trabalho.
Como prevenir os riscos do ruído ocupacional?
Para reduzir esses riscos, a prevenção deve seguir a hierarquia de controle prevista na legislação, priorizando medidas coletivas antes da utilização dos Equipamentos de Proteção Individual.
Programa de Conservação Auditiva (PCA)
Em primeiro lugar, o Programa de Conservação Auditiva integra as ações previstas no PCMSO, conforme estabelece a NR-7.
Entre suas principais atividades estão:
- avaliação dos riscos relacionados ao ruído;
- medições ambientais e dosimetria;
- realização de audiometrias periódicas;
- identificação de trabalhadores expostos;
- treinamentos e orientações;
- monitoramento contínuo dos resultados.
Dessa forma, o PCA permite identificar precocemente alterações auditivas e fortalecer as ações preventivas.
Medidas de engenharia
Antes de recorrer aos EPIs, a empresa deve reduzir o ruído diretamente na fonte.
Para isso, podem ser adotadas medidas como:
- enclausuramento de máquinas;
- instalação de barreiras acústicas;
- isolamento das fontes de ruído;
- manutenção preventiva dos equipamentos;
- reorganização do layout para afastar trabalhadores das áreas mais ruidosas.
Com isso, a exposição sonora é reduzida de forma significativa.
Medidas administrativas
Além das intervenções técnicas, algumas estratégias organizacionais também ajudam a diminuir a exposição dos trabalhadores.
Entre elas destacam-se:
- rodízio entre setores;
- limitação do tempo de exposição;
- pausas em ambientes silenciosos;
- planejamento adequado das jornadas de trabalho.
Como resultado, cada trabalhador permanece menos tempo exposto aos níveis elevados de ruído.
Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
Quando as medidas coletivas não eliminam completamente o risco, torna-se indispensável utilizar protetores auriculares.
Os modelos podem variar conforme a atividade, incluindo:
- protetor tipo plug;
- protetor tipo concha;
- combinação de ambos, quando necessário.
Entretanto, o EPI somente oferece proteção adequada quando é corretamente selecionado, ajustado e utilizado durante toda a exposição ao ruído.
Monitoramento da saúde auditiva
Da mesma forma, os exames audiométricos representam uma das ferramentas mais importantes para acompanhar a saúde dos trabalhadores.
Por meio das audiometrias ocupacionais, a empresa consegue identificar alterações precoces, revisar medidas de controle e evitar a progressão da perda auditiva.
Além disso, os resultados servem como indicadores para avaliar a eficácia do Programa de Conservação Auditiva.
A importância da cultura de prevenção
Vale destacar que o ruído é um dos riscos ocupacionais mais difíceis de perceber, justamente porque seus efeitos costumam surgir lentamente.
Por esse motivo, investir em prevenção significa proteger não apenas a audição dos trabalhadores, mas também sua saúde, sua qualidade de vida e sua capacidade laboral.
Além disso, empresas que adotam programas estruturados de controle do ruído reduzem acidentes, diminuem afastamentos e fortalecem sua cultura de Segurança e Saúde no Trabalho.
Conclusão
Em resumo, o ruído ocupacional representa um dos agentes físicos mais presentes nos ambientes de trabalho e, quando não controlado, pode provocar perdas auditivas irreversíveis e diversos outros problemas de saúde.
Por isso, cumprir a NR-15 e desenvolver ações integradas com a NR-7 não deve ser visto apenas como uma obrigação legal. Pelo contrário, trata-se de uma estratégia essencial para proteger os trabalhadores, reduzir passivos trabalhistas e promover ambientes mais seguros.
Por fim, investir em avaliações ambientais, Programa de Conservação Auditiva, monitoramento da saúde e medidas preventivas demonstra o compromisso da empresa com a segurança, o bem-estar e a sustentabilidade de suas operações.
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Fonte: Onsafety



